Myanmar e Bangladesh têm mantido contactos para resolver o drama humanitário, mas o processo de negociação -- cuja ronda inicial decorrerá na capital birmanesa e se prolongará até quinta-feira -- será a primeira ocasião em que a crise será abordada a nível ministerial.
O chefe da diplomacia bengali permanecerá em Myanmar para participar nestas negociações e a sua interlocutora poderá ser a própria Suu Kyi, que além de ser líder 'de facto' do Governo ocupa a pasta dos Negócios Estrangeiros.
Tanto a Organização das Nações Unidas (ONU) como a União Europeia (UE) instaram, reiteradamente, os dois países a iniciar negociações para travar o êxodo.
Mais de 600.000 rohingya estão refugiados no Bangladesh depois de o Myanmar ter lançado uma operação militar contra esta comunidade, após a morte, em agosto, de uma dezena de militares num ataque do chamado Exército de Salvação Rohingya de Rakhine, estado no oeste da Birmânia onde vive esta população.
Pelo menos 400 pessoas morreram e 300 povoações foram arrasadas na operação de represália contra este grupo étnico de fé islâmica num país onde o budismo, por vezes na sua versão mais radical, é o credo de 90 por cento da população.
Fontes diplomáticas veem o anúncio do início de uma negociação bilateral a alto nível governamental como um passo numa boa direção, mas o processo que se avizinha será longo e difícil.
A identificação dos refugiados coloca um obstáculo difícil de superar, na medida em que o regime de Myanmar não reconhece a cidadania aos rohingya, que cataloga como imigrantes ilegais bengalis, não existindo por isso um censo fiável dos membros da comunidade no país.
A essa dificuldade há que somar a condição de o repatriamento decorra de forma voluntária e entre os refugiados permanece viva a recordação das atrocidades cometidas nos últimos meses, pelo que uma boa proporção resiste a regressar ao seu país de origem.
Questionada pelos jornalistas, Suu Kyi limitou-se a indicar que "durante a negociação serão esclarecidos os detalhes".
A crise rohingya dominou o debate na conferência de ASEM, em que foi abordado o processo de negociação para resolver o drama humanitário, e países de maioria de população islâmica, como Malásia, Bangladesh e Indonésia, levantaram a questão no plenário da reunião de dois dias.
Os representantes desses países referiram-se aos rohingya como "refugiados do estado de Rakhine".
Na Birmânia, a designação deste grupo étnico é oficialmente proibida por ser considerado estrangeiro.
Também por pressão de Myanmar, a declaração final da conferência não faz referência à crise dos rohingya.
Em contrapartida, o texto propõe como objetivo a luta conjunta contra a "imigração ilegal", algo que alguns analistas contemplam como um êxito diplomático de Suu Kyi.
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